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O percebedor, a percepção e a coisa percebida – Uma reflexão

A Ioga do Patanjali fala que existem três fatores na vida: uma é o percebedor, aquele que percebe, outra é a percepção da coisa percebida e a outra é o objeto em si mesmo. Ela diz que estas três coisas são diferentes embora  nós, na nossa ignorância, as tomemos como uma só e não temos consciência de que elas são diferentes, a não ser que estejamos proficientes em ioga, em meditação e no trabalho com sua mente.

Esta verdade tem uma implicação profunda para toda nossa vida e a realização desta verdade não só intelectualmente, mas na prática pode mudar nossa vida e nossa relação com o mundo, com as pessoas e com qualquer outra coisa percebida neste mundo. Quando tomo consciência que sou o percebedor e que sou diferente da minha percepção e dos objetos que percebo não tomo tudo por garantido. Começo a questionar quem sou eu verdadeiramente e quem é o eu que percebe, bem como minha percepção e quem ou o que é o objeto percebido.

O eu é quem eu sou verdadeiramente sem o treinamento massivo ao qual todos nós somos submetidos para se adaptar ao nosso processo social, cultural e religioso. O eu que percebe então é constantemente este eu condicionado. A minha percepção é colorida por todo este condicionamento que sofro ao longo da vida. O objeto percebido é algo neutro e ele só tem significado quando o percebedor o percebe dando o percebedor significado a este objeto através de sua percepção, que tem naturalmente intrínseca a ela seus valores baseados nas suas crenças.

Assim, para se chegar do eu até o objeto percebido existem inúmeros filtros que colorem nossa percepção. Por exemplo, eu percebo um corpo bonito. O corpo em si não é bonito ou feio, o que o torna bonito ou feio são as minhas crenças e valores, além do estado interno que estou naquele momento, que inclui o que acredito e valorizo ser um corpo bonito. Quando consigo observar este mesmo corpo sem se envolver com minha percepção dele, isto é, retirando minhas crenças e meus valores, eu o vejo como ele realmente é, nem bonito, nem feio, mas simplesmente um corpo similar aos outros da natureza com suas diferentes características.

Krishnamurti falava muito deste tipo de observação acurada das coisas e das pessoas na qual você observa a si mesmo ou qualquer pessoa ou objeto sem julgar, sem avaliar, sem condenar e sem comparar. Ele dizia que fazer isto é uma das coisas mais difíceis para nós, pois exige estar com a mente totalmente em paz, centrada e vazia de tudo aquilo enche nossa mente no cotidiano.

Sócrates dizia, tomando o exemplo dos poetas e dos dramaturgos, que nossos sentidos do corpo são totalmente impossíveis de serem confiados completamente, pois eles são muito mais falhos do que possamos imaginar devido nossos filtros.  Ele afirmava que tudo que vemos ou ouvimos com os olhos e os ouvidos do corpo são completamente falhos podendo variar a cada segundo, minuto, dia e assim por diante. Sócrates dizia mais ainda, que ele nunca confiava na sua percepção das coisas por saber o quanto esta percepção era falha e que ele só confiava numa voz divina que o orientava desde que ele era criança.

Desta maneira nós percebemos com os sentidos do corpo e com a alma. Os sentidos do corpo conduzem a uma percepção completamente superficial dos objetos, seja de uma pessoa ou animal ou um objeto inanimado e, na grande maioria das vezes, distorcida. Esta percepção pode assim ser correta ou incorreta. Quando ela é incorreta, o que acontece constantemente, ela nos leva a sofrimento, ataque, ressentimento, medo, raiva, mentira e assim por diante. Quando ela é correta, ela nos leva a alegria, felicidade, silêncio, paz e sabedoria. Estes dois modelos de percepção nos permitem separar o joio do trigo. A percepção correta vem da alma que também pode ser chamada de Ser Superior, Buda, Jesus, Espírito Santo e outros. A percepção através da alma nos traz uma realização profunda sobre o percebido porque se percebe o percebido profundamente e o que existe de mais verdadeiro nele.

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